Recrutamento

Como reter funcionários no escritório contábil

Veja por que a rotatividade passa de 48% entre auxiliares, quanto custa cada saída e como montar um plano de carreira de uma página.

Capa do artigo sobre como reter funcionários no escritório contábil: título centralizado em letras brancas sobre fundo verde, selo Retenção de equipe e etiqueta 48% de rotatividade, com fichas de candidatos e uma lupa nas laterais.

Quem quer saber como reter funcionários no escritório contábil precisa começar por um número dos dados oficiais: nos 12 meses até agosto de 2026, o Novo CAGED registrou 86.066 admissões e 79.587 desligamentos de auxiliares de contabilidade no país. O Portal Salário, que organiza esses dados, calcula para o cargo uma rotatividade de 48%. Em outras palavras, um escritório com dez auxiliares tende a trocar quase metade da equipe em um ano.

Para analistas e contadores (CBO 2522-10) o quadro é parecido, com um detalhe a mais: no mesmo período houve 43.308 desligamentos contra 39.343 admissões. Saiu mais gente do que entrou com registro. Este artigo mostra por que as pessoas saem, quanto custa cada saída e o que um escritório pequeno ou médio consegue mudar já no próximo trimestre.

Por que a rotatividade é alta no escritório contábil

Há uma conta de oferta e procura por trás. Segundo dados do CFC compilados pela Escola Exchange, o país tinha 101.880 organizações contábeis em 2025. O número de organizações cresceu cerca de 40% em cinco anos, enquanto o de profissionais registrados cresceu 3,88% no mesmo período. Mais escritórios disputando quase a mesma quantidade de gente significa que o auxiliar treinado por você recebe proposta do escritório da rua de trás.

A pressão não é só do setor contábil. Um levantamento do Ibre/FGV divulgado pelo Portal Contábeis em agosto de 2025 apontou que 57% das empresas tinham dificuldade para contratar e reter funcionários, e 64% citavam a falta de mão de obra qualificada como a principal barreira. O mesmo texto registra que 30% dos pedidos de demissão de 2024 vieram de jovens de 18 a 24 anos.

Do lado de quem trabalha, o SINDESC/RS, sindicato que diz representar mais de 20 mil empregados de escritórios e empresas de contabilidade no Rio Grande do Sul, listou em abril de 2026 as queixas mais ouvidas:

  • salário defasado;

  • cobrança alta, sobretudo em fechamento e prazo de obrigação;

  • falta de plano de carreira;

  • falta de treinamento;

  • pouco reconhecimento pelo trabalho entregue.

Nenhum desses itens se resolve com um evento de fim de ano. Quase todos se resolvem com regra clara e escrita.

Quanto custa perder um auxiliar: exemplo com números

O Portal Salário estima o custo mensal de um auxiliar de contabilidade para a empresa em R$ 4.471, para uma média salarial de R$ 2.630. Vamos usar esse valor num escritório fictício com 12 colaboradores e a rotatividade de 48% do cargo: são cerca de seis saídas por ano.

As premissas abaixo são do exemplo, não de pesquisa. Ajuste com os números do seu escritório.

Item

Premissa

Valor por saída

Vaga sem ninguém

1 mês de trabalho redistribuído, com hora extra da equipe

Varia conforme a convenção coletiva

Curva de aprendizado

3 meses rendendo metade do esperado

R$ 6.706 (1,5 mês de custo)

Seleção

10 horas de um sênior entre triagem, entrevista e teste

Horas que deixam de ir para clientes

Erros na entrada

Retrabalho em guias e obrigações nos primeiros meses

Multa e desgaste com cliente

Só a curva de aprendizado, que é a parte mais fácil de medir, soma R$ 6.706 por saída. Com seis saídas, são R$ 40.236 por ano.

Agora compare com um reajuste. Dar R$ 300 a mais por mês para oito auxiliares custa R$ 2.400 por mês. No ano, com 13º e terço de férias, dá R$ 32.000 antes dos encargos. Se esse aumento evitar duas ou três saídas, a conta fecha ou chega perto de fechar, e o escritório ainda ganha em qualidade de entrega.

O ponto do exemplo não é que salário resolve tudo. É que o dono do escritório costuma enxergar o custo do reajuste na folha e não enxerga o custo da saída, que fica espalhado em hora extra, atraso e retrabalho.

Salário: a primeira coisa a conferir

O custo de folha é a principal dificuldade para 44% dos participantes do Movimento VISÃO25, pesquisa de 2025 com 1.521 respostas, 749 delas de donos de escritório. A preocupação procede, mas não dispensa conferir se a sua tabela está na faixa do mercado.

Use duas referências:

  1. O piso da convenção coletiva do seu sindicato, que é o mínimo legal da sua região.

  2. As faixas de mercado. O Guia Salarial da Robert Half aponta para analista contábil e fiscal júnior, na categoria de empresa P/M, valores entre R$ 4.000 e R$ 5.700, e para o pleno na mesma categoria, entre R$ 5.400 e R$ 7.750.

Se o seu pleno ganha o salário de um júnior de mercado, o problema de retenção já tem nome. O artigo CLT ou PJ na contabilidade ajuda a comparar o custo total antes de mexer na tabela.

Plano de carreira em uma página

Escritório pequeno não precisa de manual de RH. Precisa de uma página que responda três perguntas para cada cargo: o que a pessoa faz, o que ela precisa provar para subir de nível e quanto passa a ganhar quando sobe.

Um modelo para começar:

Nível

Responsabilidade

Critério para subir

Faixa de referência (Robert Half, P/M)

Analista júnior

Lançamentos, conciliações, guias com revisão

6 meses sem erro em guia e domínio de uma carteira pequena

R$ 4.000 a R$ 5.700

Analista pleno

Fechamento de carteira própria, atendimento ao cliente

Fechar a carteira no prazo por dois trimestres seguidos

R$ 5.400 a R$ 7.750

Analista sênior

Revisão do trabalho dos outros, casos complexos

Treinar um júnior e responder por uma área (fiscal, pessoal, contábil)

R$ 6.850 a R$ 9.800

Coordenação

Equipe, prazos e relação com os clientes principais

Surgir a vaga, por saída ou crescimento do escritório

R$ 12.050 a R$ 16.450

O critério tem de ser verificável. "Mostrar comprometimento" não serve, porque cada sócio lê de um jeito e a pessoa nunca sabe se cumpriu.

Para o auxiliar, a faixa de referência do Portal Salário fica entre R$ 2.000 (percentil 25) e R$ 3.000 (percentil 75), com mediana de R$ 2.400.

Treinamento e carga de trabalho

Entre as estratégias citadas na pesquisa do Ibre/FGV, o treinamento interno aparece em primeiro lugar, com 44% das empresas, à frente da ampliação de benefícios (32%) e do aumento de salário (14%). No escritório contábil, treinamento tem retorno rápido porque a reforma tributária vai mudar a rotina de quase todo cliente entre 2026 e 2033.

Práticas que custam pouco:

  • pagar a inscrição em um curso de IBS e CBS para quem cuida da área fiscal e pedir que a pessoa repasse o conteúdo à equipe numa reunião de uma hora;

  • reservar duas horas por semana, fora dos dias de fechamento, para o júnior acompanhar o sênior em casos novos;

  • distribuir as carteiras pelo número de lançamentos e obrigações, e não pelo número de clientes, para evitar que uma pessoa fique com o triplo do trabalho de outra.

A carga de trabalho é a queixa mais difícil de ver de fora. Um jeito simples de medir é registrar, por um mês, quantas horas extras cada pessoa fez e em que semana. Se a hora extra se concentra sempre nos mesmos nomes, você já sabe quem está mais perto de sair.

Entrevista de saída e entrevista de permanência

Quem sai costuma dar um motivo educado. Para descobrir o motivo real, pergunte o que faria a pessoa ficar se a proposta de fora não existisse e qual tarefa ela menos gostava de fazer.

Melhor ainda é perguntar antes. Uma conversa de 20 minutos a cada seis meses com cada pessoa da equipe, com três perguntas fixas (o que te faria aceitar outra proposta, o que você quer aprender no próximo semestre, o que atrapalha o seu trabalho hoje), mostra os sinais de saída meses antes do pedido de demissão.

Se a pessoa nova sai nos primeiros meses, o problema pode estar na entrada. O artigo sobre contrato de experiência para analista contábil mostra como organizar os primeiros 90 dias.

Perguntas frequentes

Qual é a rotatividade média em escritórios contábeis?

Para auxiliares de contabilidade, o Portal Salário calcula 48% com base no Novo CAGED dos 12 meses até agosto de 2026. Um levantamento de 2023, o Panorama do Empreendedorismo Contábil, com 422 respostas, indicou que o escritório médio trocava cerca de 75% da equipe por ano. Os métodos são diferentes, então compare com cuidado.

Aumentar salário resolve a rotatividade?

Ajuda quando o salário está abaixo da faixa de mercado, mas raramente resolve sozinho. As queixas mais citadas por empregados de escritórios incluem cobrança alta, falta de plano de carreira e pouco reconhecimento. Um reajuste sem critério para subir de nível tende a segurar a pessoa por alguns meses, até a próxima proposta.

Quanto custa substituir um auxiliar contábil?

Depende do escritório. Usando o custo mensal de R$ 4.471 estimado pelo Portal Salário e uma premissa de três meses rendendo metade do esperado, só a curva de aprendizado soma cerca de R$ 6.700 por saída. Some a isso as horas de seleção, a hora extra da equipe e o retrabalho dos primeiros meses.

Escritório pequeno precisa de plano de carreira formal?

Precisa de regra escrita, não de manual. Uma página com os níveis, a responsabilidade de cada um, o critério verificável para subir e a faixa salarial já resolve boa parte da queixa de falta de perspectiva. O ponto principal é que o critério seja o mesmo para todos e conhecido por todos.

Próximo passo

Puxe a lista de quem saiu do escritório nos últimos 12 meses e anote, para cada nome, o cargo, o tempo de casa e o motivo informado. Com isso em mãos, revise a tabela salarial e escreva a página do plano de carreira antes da próxima data-base. Se você precisa repor uma vaga agora, divulgue a vaga na Connectabil e receba candidatos da área contábil e financeira.

Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um contador ou advogado.

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Fontes

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